Antidepressivos — um guia rápido e uma visão pessoal.

A minha jornada pessoal com antidepressivos não é muito longa, ela começou em Agosto de 2018, e num mundo onde o tempo é a chave principal quando se trata de doenças mentais 8 meses não é muita coisa. Porém para mim, esses 8 meses foram extremamente agitados e essenciais; mudei de medicação uma vez, tive um episódio suicida, comecei terapia pela quinta vez, tive coragem pra abrir a caixa de Pandora que são meus traumas do passado e com isso tudo minha perspectiva da vida sofreu alterações irreversíveis.

Antes de mais nada eu sei que a experiência com remédios controlados varia de pessoa pra pessoa, e como meu antigo médico me disse uma vez é desconhecido porque eles funcionam tão bem em algumas pessoas mas não em outras. Há pessoas, como eu, que se dão muito bem com o remédio depois de um tempo, outras que passam a vida inteira e nunca se adaptam; alguns acertam a medicação da primeira vez e outros mudam de medicação no mínimo umas 5x até acharem alguma que funcione. Também é válido pontuar que é um tratamento demorado, pois eles levam de oito a doze semanas para fazer alguma diferença, e até seis meses para ter seu efeito pleno. Por certo ainda há muito que avançar no estudo de doenças mentais, seus tratamentos, os porquês e é claro, suas medicações, mas não é disso que eu quero falar, eu quero falar sobre os medicamentos que já existem e esclarecer mitos que rondam o imaginário popular sobre eles e como eles são aliados poderosos para aqueles que lutam contra os transtornos de humor.

Como é de se esperar, antidepressivos são fármacos usados comumente para tratar transtornos depressivos porém também são usados para tratar outros tipos de doenças tais quais:

  • transtornos de ansiedade;
  • transtornos alimentares;
  • dor crônica;
  • distúrbios sexuais;
  • adicção;
  • e até mesmo mal de Parkinson.

Como eles funcionam?

O homem já pode ter pisado na Lua e talvez em breve colonizaremos Marte, mas ainda não sabemos ao certo porque transtornos de humor surgem. As teorias mais aceitas acerca do assunto giram em torno de anormalidades que envolvem os neurotransmissores monoaminérgicos, especialmente norepinefrina, flucoxantina, dopamina, noradrenalina e serotonina (guardem o nome das duas últimas, será útil mais a frente). Sendo assim os antidepressivos em sua maioria agem exatamente nesses neurotransmissores de nomes estranhos; eles aumentam e/ou prolongam a atividade da noradrenalina e da serotonina, que são os dois neurotransmissores responsáveis pela regulação do humor no nosso cérebro.

O vídeo abaixo explica a parte científica do processo:

Os quatro cavaleiros do apocalipse

Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS)

Para aqueles que guardaram o nome, obrigada. Os ISRs, pra ser mais curta, são antidepressivos que agem bloqueando a recaptura de serotonina pelo neurônio que a gerou, fazendo com que sua ação se prolongue no cérebro. Eles surgiram no final dos anos 1980 e são menos perigosos em caso de overdose do que os antidepressivos tricíclicos. É provavelmente o tipo de antidepressivo mais prescrito pelos médicos ao redor do mundo e seus nomes mais famosos são: fluoxetina, sertralina, citalopram, e a paroxetina.

De experiência própria eu posso falar sobre a Fluoxetina e a Sertralina, ou como são popularmente conhecidas, Prozac e Zoloft, respectivamente. O Prozac seja talvez o mais popular dos antidepressivos, e foi a minha primeira medicação; seria uma eufemismo dizer que não nos demos muito bem. 2 meses e alguns dias e tudo que eu ganhei foi uma piora no meu quadro depressivo e ansioso, e uma tentativa de suicídio. Eu tinha virado um dos zumbis de The Walking Dead e ninguém ao meu redor foi bondoso o suficiente pra me dizer isso; obrigada amigos não guardo mágoa de vocês. Já a minha segunda medicação, foi o Zoloft, que diga-se de passagem me ajudou imensamente. Os efeitos colaterais foram menores que da primeira vez e a mudança no meu humor e na minha qualidade de vida foi visível. Estamos a 5 meses juntos e eu passei da dosagem mínima para uma maior, coisas da vida…

Inibidor seletivo da recaptação da serotonina e da noradrenalina (ISRSN)

Os membros mais jovens da família, surgidos no começo dos anos 1990, os ISRSN agem de maneira similar aos seus primos ISRs. A diferença aqui se dá pois além de bloquear a recaptura da serotonina eles também impedem a recaptura de noradrenalina, logo esses dois neurotransmissores agem mais tempo no cérebro prolongando a sensação de bem estar. Seus efeitos colaterais são menores e são mais utilizados nos casos mais graves de depressão e ansiedade. Os nomes mais comuns dessa classe são: venlafaxina, milnaciprano e desvenlafaxine.

Inibidores da monoaminoxidase (IMAO)

Os bad guys da família, os IMAO são antidepressivos prescritos apenas quando nenhum dos outros tipos funcionam no paciente. Eles agem fazendo com que a enzima monoamina oxidase, responsável por degradar monoaminas tais quais a noradrenalina e a serotonina, entre outras, trabalhem mais, logo a ação da noradrenalina e da serotonina será prolongada. É importante saber que quando se faz uso de medicamentos IMAO é preciso seguir uma dieta restrita pois a interação com certos tipos de alimentos pode ser prejudicial a saúde do paciente. Possui também interação violenta se misturada com outros tipos de antidepressivos e medicamentos em geral. Os IMAOs existentes hoje são: parnate, fenelzina, isocarboxazida, sendo os dois últimos não comercializados no Brasil.

Tricíclicos & CIA

Old school e assento preferencial, os tricíclicos são os mais antigos da família e surgiram em meados de 1950. Agem prolongando a ação da noradrenalina e da serotonina (por aqui, acho que já é familiar esses nomes pra vocês), eu poderia explicar a ciência por trás do trabalho que os tricíclicos fazem mas creio que seja irrelevante, basta lembrar isso: eles prolongam a ação das nossas amigas serotonina e noradrenalina. O que faz com que eles sejam colocados para escanteio hoje em dia seja o fato de que seus efeitos colaterais são muito comuns, o que faz com que a maioria dos pacientes descontinue seu uso após um tempo. Falaremos sobre os efeitos colaterais em outro tópico.

Outra desvantagem é o risco de morte em caso de overdose. Talvez seja pela reputação deixada pelos tricíclicos ao longo dos anos que hoje em dia muitas pessoas ainda acreditem que antidepressivos são drogas perigosas. Por certo, devo discordar nesse ponto pois com o avanço das pesquisas os antidepressivos ficaram muito mais seguros e os riscos de morte em caso de overdose diminuíram consideravelmente, e é por isso que nos dias atuais os ISRS são o carro-chefe das prescrições médicas, pelo fato de serem seguros.

Nem tudo que reluz é ouro

Bem como todos os outros remédios conhecidos e feitos pelo homem, os antidepressivos possuem efeitos colaterais. Por vezes os médicos recomendam que o paciente não leia a bula do remédio justamente por causa destes; por favor, não os levem a mal, eles fazem isso pelo seu próprio bem. Há diversos efeitos colaterais que nunca chegam a surgir no paciente, mas como transtornos mentais são pautados no psicológico do paciente se ele souber que corre o risco de ter disfunção sexual ou insônia durante um certo período de tempo é bem capaz que eles não tomem o remédio. A maior parte dos efeitos colaterais desaparecem com o tempo, e no caso dos ISRS são mais fracos do os que ocorrem com o uso dos tricíclicos, mas caso persistam os sintomas é uma indicação de que a medicação não está fazendo o efeito desejado.

No caso dos Tricíclicos os efeitos colaterais mais comuns são: boca seca, aumento de peso, dificuldade para urinar, fadiga, constipação, sonolência, visão borrada, disfunção sexual, tontura, entre outros. Ufa! Quanta coisa. Já no caso dos ISRS os mais comuns são: náuseas, diarréia, agitação, tremores leves, insônia ou sonolência, fadiga, dor de cabeça, entre outros.

Imagino o que você deve estar pensando, eu provavelmente pensei a mesma coisa quando eu li a bula do Prozac pela primeira vez. Mas sabe o que eu aprendi com a experiência? Na prática as coisas são beeem diferentes. De antemão vamos relembrar uma coisa: quem toma antidepressivo é porque tem algum tipo de transtorno depressivo, e se você nunca teve depressão antes talvez não esteja familiarizada com seus sintomas. Fadiga? É um sintoma de depressão. Insônia ou sonolência? Também um sintoma de depressão (são chamados de distúrbios do sono e são levados em conta quando a pessoa está em algum dos extremos). Aumento de peso? Não é necessariamente um sintoma, mas distúrbio alimentar sim. Depressão causa apatia na pessoa e por muitas vezes ela não sente a necessidade de comer ou não tem a energia para tal. A ansiedade que muitas vezes vem acompanhada da depressão também faz com que o apetite sofra alterações, levando a pessoa a ingerir alimentos ricos em açúcar e pobres em nutrientes, o que acarreta em ganho de peso. O meu ponto aqui não é falar da depressão em si, e deixo claro que há diversos outros sintomas a serem levados em conta e o tempo em que eles estão presentes, porém muitos dos efeitos colaterais que são causados pelos medicamentos já são vivenciados pelos pacientes pois são parte da doença.

Dados extraídos da OMS (Organização Mundial da Saúde)

Logo minha visão aqui não é ignorar os efeitos colaterais que vem junto da medicação, eles existem e são ruins. Mas na minha opinião é um sabor amargo que vale a pena experimentar na busca pela retomada do bem estar. A depressão é uma doença muito mais perigosa do que uma simples dor de cabeça.

Gravidez

A gravidez é um período delicado para todas as mulheres que passam por essa experiência, e é ainda mais delicado para aquelas que possuem algum transtorno tais quais depressão e/ou ansiedade. Antes de mais nada é preciso deixar claro que o uso de medicação controlada deve ser seguido de perto pelo seu médico e aqui eu só estou dando uma visão geral e simplista de como é o uso de medicamentos por mulheres grávidas.

O benefício de tomar antidepressivos na gravidez é basicamente o mesmo de tomá-los se você não estiver grávida. Sua saúde mental irá melhorar e você vai se sentir melhor; com uma nova vida chegando ao mundo você vai recuperar a energia que criar uma criança demanda. Medicação sozinha não é a solução pra tudo e ela precisa ser alinhada com diversos outros fatores tais quais psicoterapia, suporte familiar e de amigos, exercícios físicos e quaisquer outras atividades que lhe tragam prazer. Muitas vezes tentar todo o resto e deixar de fora a medicação não é o suficiente, e tá tudo bem; depressão e ansiedade tem diversos níveis e afetam as pessoas de formas variadas. É OK se você precisa do exercito inteiro para lutar contra a doença.

Entretanto os riscos de tomar antidepressivos nesse caso devem ser levados em consideração. Os principais são:

  • Aumento de risco de parto prematuro e aborto espontâneo;
  • Possíveis defeitos de parto, tais quais defeitos cardíacos, lábio leporino e espinha bífida;
  • Passagem do remédio para o bebê durante a amamentação;
  • Sintomas de abstinência no recém nascido (ocorre principalmente se a medicação começar a ser usada no final da gravidez).

Por não serem testados em mulheres grávidas há riscos desconhecidos que esse tipo de medicação pode provocar.

Há diversos tratamentos alternativos que não utilizam antidepressivos e que podem ser tão eficazes quanto, como eu já disse o tratamento é muito individual pois cada um responde de uma forma diferente.

Logo reforço que essa decisão deve ser muito bem pensada em conjunto da mãe e do seu médico.

“Experimentamos uma nova droga,

uma nova combinação

de drogas, e de repente

volto à minha vida de novo

Como um rato arrebatado pela tempestade

e derrubado três vales

e duas montanhas adiante.

Eu vou conseguir encontrar o caminho de casa.

Tenho certeza que sim…”

Jane Kenyon, Otherwise: New & Selected Poems

Um dos preconceitos mais comuns que existem sobre quem toma medicação controlada é que essas pessoas são dependentes químicos, eu mesma já ouvi isso. E embora dependentes químicos talvez usem antidepressivos em seu tratamento, não significa que todos os que a tomam são. É uma decisão muito difícil começar a tomar medicamentos pois há diversos mitos e preconceitos que envolvem o imaginário popular, e a maioria das pessoas só se desfaz deles depois que são confrontados com a doença. Sempre me considerei uma pessoa desconstruída mas adentrando o tratamento eu descobri diversas camadas de preconceitos que eu não imaginava que eu tivesse. Então, eu admito que já cheguei a achar que antidepressivos eram drogas perigosas, que quem tomava eles eram pessoas “malucas”, e tudo mais que vem junto no pacote.

Hoje eu sei que antidepressivos não causam dependência química, o que ocorre muitas vezes é o que os médicos chamam de “síndrome de abstinência”. Vamos lá, eu acabei de dizer que antidepressivos não causam dependência química mas disse que eles provocam abstinência, vejamos: antidepressivos são medicamentos que agem no sistema nervoso central, eles modificam a química do cérebro (é, isso pode soar super sério mas lembre-se: o cérebro de uma pessoa depressiva é quimicamente desequilibrado) e seu interrompimento abrupto pode ter reações adversas. Muitas pessoas simplesmente param de tomar a medicação sem consultar seus médicos e essa retirada sem a devida supervisão causa problemas, se alguém já toma a medicação por algum tempo o corpo da pessoa se ajusta a isso, então o mais seguro a se fazer nesses casos é a retirada aos poucos da medicação junto do acompanhamento médico.

Por outro lado há pessoas que tomam medicamentos a vida inteira ou passam anos e anos os tomando, isso não é sinal de dependência, repito. Meu pai toma remédio para diabetes a maior parte da vida dele e nunca ouvi ninguém dizer que ele é viciado neles. É preciso lembrar que o cérebro é um órgão do corpo humano e assim como o coração, os rins, o estômago, etc. ele também adoece e precisa de cuidados para funcionar. Precisar de medicação para depressão pelo resto da vida não é algo para se envergonhar, eu uso óculos desde os 12 anos e vou morrer usando-os e eu não tenho problema nenhum com isso, hoje aos 20 ele já é quase uma parte de mim, e é aqui onde eu quero chegar: eu de certa forma sou dependente dos meus óculos pra enxergar. Não consigo andar na rua sem eles, não consigo nem ao menos chegar ao banheiro sem eles. Mas algum dia alguém me diminuiu por isso? Não. Talvez seja o mesmo com a medicação. Talvez eu chegue a casa dos 70 ainda tomando Zoloft porque sem eles talvez eu não consiga andar na rua ou chegar ao banheiro, e eu não quero e não vou admitir que ninguém me diminua por isso. Meu cérebro é um órgão que adoeceu, e eu preciso de medicação para manter ele saudável. Qual é o problema nisso?

Dados extraídos da OMS (Organização Mundial da Saúde)

Termino aqui com um parágrafo de um livro que me ajudou muito e que vou deixar lá embaixo pois talvez ajude alguém.

“Embora os antidepressivos possam ser utilizados durante anos, não causam dependência. Esse tipo de medicamento não altera as percepções de quem os toma, como fazem os tranquilizantes e os analgésicos. Os antidepressivos não causam, em pessoas que não tenham depressão, sensações de atordoamento nem de uma felicidade fora do comum. Tampouco anestesiam o indivíduo para os infortúnios da vida. Pelo contrário: quando funcionam, simplesmente restauram a sua capacidade normal de pensar e sentir.”

Michael E. Thase e Susan S. Lang, Sair da depressão. Editora Imago.

Fontes utilizadas para coleta de dados:

  1. National Institute of Mental Health, NIH. (Em inglês);
  2. Mind (Em inglês);
  3. Wikipédia (Em português);
  4. “Sair da depressão”, Michael E. Thase e Susan S. Lang. Editora Imago. 1ª edição.

Engineer student, aspiring writer and activist. My life is a mess. Contact: alessandrafigueiredo@outlook.com | I write in English and/or Portuguese.

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